quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Lembranças (parte 3)


Então ela decidiu que o queria. Queria não somente nos sonhos, nos seus pensamentos. Que todas as lembranças que tinha deixassem de ser apenas lembranças, se tornassem fatos. Que saíssem da esfera do imaginário, intangível e do intocável. Ela levantou-se decidida. Mesmo que ele não a tivesse percebido, ela caminhou em sua direção.

À medida que se aproximava dele, ela percebia cada vez mais os detalhes que lhe fugiam no sonho. Percebeu que sua boca tinha um traço perfeito, que seus olhos além de terem cor de mar, mudavam de cor conforme a claridade, que ao falar, parecia que os pássaros paravam para ouvir sua voz. Detalhes que antes ela não havia percebido, mas que se tornavam cada vez mais intrínsecos. O coração teimava em querer sair pela boca, o ar teimava em lhe faltar.

Foi então que os músculos lhe travaram a caminhada. Não conseguia mais seguir em frente. Teve medo. E se tudo aquilo fosse apenas uma doce ilusão da sua cabeça. E se ele nunca a notasse. Uma infinidade de “e se” tomou sua mente a impedindo de prosseguir. Teve vontade de correr, de sumir dali, de voltar pra sua cama e dormir; dormir e não acordar nunca mais dos seus sonhos.

Ela então decidiu que não faria mais nada. Que não falaria. Que não sorriria. Que não olharia. Seus músculos foram relaxando aos poucos. Ela voltou a caminhar, mas o que antes lhe traduzia confiança, agora era incerteza. Parecia triste. Ela o queria e o amava mais do que podia imaginar. Mas sabia que esse amor era fruto apenas de sua imaginação.

Ao passar perto dele, com a cabeça baixa, os pensamentos tão longe sequer permitiram que ela percebesse que sua presença também mexia com ele.

Henrique não sabia como seria o seu dia. Tivera uma noite agitada. Não conseguiu dormir direito. Lembranças e pensamentos o atormentavam. Teve vontade de fugir, mas estava cansado. Sentia o ar pesando sobre os pulmões. Não conseguia respirar. Decidiu que precisava caminhar, por a cabeça em ordem. Decidiu ir ao parque. Não podia imaginar o presente que o destino estava lhe dando, mas sentia seu corpo sendo levado pra lá, era como se estivesse sendo carregado.

Andou por entre os jardins do parque sem saber em que direção seguir. Resolveu parar. Estava cansado. Sentia seu corpo pesar. Foi então que olhou para onde seus olhos o guiavam. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Era como a imagem de um sonho se materializando em sua frente. Um anjo. Era essa a definição que buscava. Um anjo sorridente, brincalhão, um anjo sem asas, mas definitivamente um anjo.

Seus pensamentos se dissiparam. Tudo o que o atormentava parecia não importar mais. Não tinha mais sentido, razão. Ela era tudo o que precisava. Ela era tudo o que ele amava. Seus olhos negros como a noite, tinham o brilho de uma pérola, sua pele corada e macia, mãos delicadas, corpo de menina mulher, cabelos ondulados. Ele decididamente a queria. Tentou criar coragem para levantar-se e falar com aquela que de uma hora para a outra dominou todos os seus sentidos.

Ficou feliz em ver que ela havia levantado e estava caminhando em sua direção.

Beijinhos com sabor de mel...

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